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sexta-feira, 2 de maio de 2008

A Dignidade de um Bebado.


Quando era criança tínhamos dois alcoolatras no bairro já em fase de delirius tremus, pra nós crianças, era uma festa, nenhum dos dois era agressivo, um conhecido enquanto bêbado de crocodilo e sóbrio era Francisco, ai de quem o chamasse de crocodilo, quando delirava era um oficial do exercito e tinha ao lado um general que o acompanhava, riamos muito com aqueles diálogos militares, o outro era sambista e passista, esse tinha família, nunca soubemos de algo além de sua bebedeira, sua família sempre foi respeitada, no final da vida se isolou da sociedade para se manter sóbrio, morreu de velhice.
O que mais me intrigava era que quando estavam sóbrios não podíamos nem em pensamentos caçoar deles, hoje percebo que nem bêbados devíamos fazer isso.
Minha mãe sempre me dizia:
-Até um bêbado tem dignidade.
Concordo com ela, mas porque não refrescar a memoria quando podiam raciocinar?
Lembro que uma vez um deles veio trabalhar na capina pra minha mãe, enquanto ele almoçava não me contive, fui perguntar se ele lembrava das coisas que fazia bêbado, parecia que eu tinha lhe dado uma pedrada, foi um alvoroço só, ele nunca mais voltou a trabalhar na minha casa, se sentiu ofendido por uma criança curiosa.
Acredito no alcoolismo enquanto doença, acredito que existem muitas pessoas impotente perante o álcool, acredito que nem sempre pedir ajuda é fácil, mas não acredito que o álcool faça com que alguém se torne leviano e amoral.
O álcool traz a tona o verdadeiro eu, para uns frustrações, para outros coragem de fazer o que jamais faria de cara limpa, e para alguns delírio de quem gostaria de ter sido.
Esses de quem falo tinham sua dignidade, quando bebiam só tentavam ser quem a vida não lhes permitiu ser, o máximo que faziam era cantar, falar e delirar. Mal??? Só fizeram a si mesmo.
Nunca conseguiram falar de suas próprias frustrações por isso não suportavam lembrar de seus delírios, não acredito que tiveram a oportunidade de escrever uma historia diferente, embora tenham tentado.
Tento analisar dignidade, moral e vicio, e nada consigo ver além de princípios.
Quem tem vai ter em qualquer circunstancia, quem não tem o vicio só vai aflorar a ausência deles.
Chego a conclusão existem bêbados com dignidade e os bêbados amorais, porém ambos sofrem em sua realidade, mas a quem cabe reverter esse quadro???

É uma questão de educação!!!!!

Educadores(assim deveria ser chamado os pais e não os professores).
Não criem seus filhos como se eles fossem capazes de nunca atravessar a fronteira do álcool, eles vão e nós sabemos disso.
Cuidem para que eles saibam o valor das palavras dignidade e moral, se assim for, mesmo que tenham se adentrado com tudo neste território ainda lhe restará dignidade para voltar.
E não ignorem, NUNCA, um caso de alcoolismo em sua família, boa parte dos adolescentes alcoolotras começaram a beber em casa por volta dos 13 anos.


Alcoolismo é uma doença, não é contagioso mas é contagiante, e deve ser tratado.